Chegou
o momento para assistirmos a Eleanor the Great (A Grande Eleanor,
como título em português), o primeiro filme de Scarlett Johansson enquanto
realizadora e com June Squibb como a protagonista.
No
elenco também fazem parte Erin Kellyman, Jessica Hecht, Rita Zohar e Chiwetel
Ejiofor.
Inicialmente,
o público português teve a oportunidade de assistir a esta estreia no dia 1 de
novembro no The Chapel durante a 2ª edição do Tribeca Festival Lisboa.
Nesta
produção temos Eleanor, uma viúva que aos 94 anos procura reencontrar-se
em Nova Iorque, mas uma história contada por acaso arrasta-a para uma teia de
afetos, ilusões e descobertas, onde a fronteira entre verdade e mentira se
dissolve em humanidade.
June
Squibb é a atriz responsável por dar vida de uma forma vibrante à espirituosa e
orgulhosamente problemática Eleanor Morgenstein, uma mulher de 94 anos
que, após uma perda devastadora, passa a contar uma história que ganha vida
própria e torna-se perigosa.
Nas
mãos de Scarlett Johansson são entrelaçados temas como o envelhecimento, a
família, a perda e os limites do engano, transformando esta história de amizade
e memória num retrato profundo da complexidade humana.
Divulgação: Sony Pictures Classics
Eleanor sempre se manteve envolvida e ligada
às pessoas à sua volta. Depois de ter perdido a sua melhor amiga, ela muda-se da
Florida para Nova Iorque para assim, viver com a filha e o neto, na esperança
de se reconectar com a família. Em vez disso, ela sente-se ainda mais à deriva
e invisível.
Eleanor é uma mulher sem filtros cheia de vida e com um lado rebelde que depois da partida da sua Bessie (Rita Zohar), leva a que ela viva uma grande dor e um vazio emocional, devido à ausência de alguém que foi a sua amiga mais íntima ao longo de 70 anos.
Um
dia durante uma visita ao Centro Comunitário Judaico de Manhattan, ela calha
entrar num grupo de apoio para sobreviventes do Holocausto, onde na realidade
não pertence. No entanto, aproveita apenas para revelar uma história que, sem
querer, lhe traz um nível de atenção que não pretendia.
Esta
mesma história que Eleanor contou e que nem tinha noção das proporções
que iriam tomar, era na realidade o testemunho de Bessie que sobreviveu
ao Holocausto. Embora sem pensar, quando Eleanor decidiu assumir o
relato de uma sobrevivente do Holocausto, esta mentira acabou por aumentar a
sua dimensão até fugir do controlo.
Assim,
ela vê-se envolvida numa narrativa que não esperava vir a acontecer, enquanto Nina
(Erin Kellyman), uma jovem estudante de jornalismo a procura como amiga e
mentora e que ainda, quer fazer um artigo sobre Eleanor. Quando as
coisas vão longe demais, Eleanor tem de enfrentar a verdade.
Por
quanto tempo irá a mentira de Eleanor durar? Será que a relação entre Eleanor
e Nina irá resistir?
Eleanor
The Great é de um
modo inesperado surpreendente e contém um tom caricato e outro mais emocional e
caloroso. Apesar disso e devido a alguns desequilíbrios, fragilidades e falta
de cuidados com alguns assuntos, a trama em si pode não agradar a todos.
Contudo, aborda temas com o qual o público se identifica, como a perda, o luto,
a empatia, a compaixão, o perdão e acima de tudo, o poder da amizade. Além
disso, transmite a mensagem do quanto devemos viver a vida, não importa a idade
e ainda, manter vivas, memórias importantes.
Os
destaques deste filme vão para a interpretação maravilhosa e comovente de June
Squibb e para as dinâmicas das ligações, tanto de Eleanor com Bessie,
como a de Eleanor com Nina. É bonito de se assistir a uma amizade
tão verdadeira e cúmplice como a de Bessie e Eleanor e além
disso, acompanhar a construção da ligação inesperada de Eleanor com Nina.
Estas são duas relações muito diferentes entre si, mas que é interessante ver como
funciona a dinâmica de cada uma delas.
No
seu papel como Eleanor, June Squibb apresenta-a como uma mulher
carismática e astuta que usa a idade avançada a seu favor e entrega uma
combinação de ironia e um humor atípico enrolado numa língua afiada.
Divulgação: Sony Pictures Classics
Temos
aqui alguém que sofreu uma perda forte e profunda, enquanto quer ser dispensada
e colocada num lar de idosos pela sua filha. Ela não tem muitas pessoas com
quem conversar e ter a oportunidade de se abrir e partilhar os sentimentos de
perder a sua melhor amiga e os seus arrependimentos. E é graças a Nina
que começa a sentir-se mais confortável e aberta para conversar, embora inclua
algumas mentiras pelo meio. Nina não só passa a passar muito tempo com Eleanor,
mas à sua maneira, também consegue impactar esta idosa.
Aos
poucos, vamos compreendendo os motivos pelos quais nasceu esta grande mentira
criada por Eleanor que envolve boas intenções. Na realidade, quando Eleanor
assume a identidade de uma sobrevivente do Holocausto, ela acredita que é por
um bom motivo e que está a honrar e conservar a memória da amiga. É
impressionante como a dor e o luto pode fazer as pessoas fazerem coisas
inimagináveis.
Divulgação: Sony Pictures Classics
Com
Eleanor the Great é explorado o tema da identidade e o poder do storytelling
e da conexão humana. É oferecido algo que não vemos todos os dias, que é trazer
uma história moralmente mais complexa e um tanto ambiciosa, cuja protagonista é
uma idosa autêntica e onde June Squibb brilhou do início ao fim, sendo que tudo
é tratado de um modo leve, apesar de por vezes, serem retratados assuntos mais
delicados. Também existem aqueles momentos em que a pessoa fica com uma lágrima
no cantinho do olho e outros em que algumas saídas de Eleanor têm a sua
piada. Já a fotografia é satisfatória e a banda sonora é discretamente eficaz.
Em
relação à estreia de Scarlett Johansson como realizadora resulta num desempenho
que mostra potencial nesta função e cria curiosidade em querer acompanhar
projetos desta figura que tanto conhecemos nos seus inúmeros trabalhos como
atriz. Acredito que ela tem um futuro promissor numa carreira de realização,
mas que precisa de tempo para melhorar as suas capacidades para tal.
Apesar de por vezes ser um pouco previsível, Eleanor the Great é bom o suficiente para criar reações no espetador e em que June Squibb rouba genuinamente as atenções com a sua versatilidade, onde a sua performance complexa equilibra humor, profundidade emocional e vulnerabilidade.







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