domingo, 11 de janeiro de 2026

Eleanor the Great - o que esperar do primeiro filme realizado por Scarlett Johansson e protagonizado por June Squibb

 

Chegou o momento para assistirmos a Eleanor the Great (A Grande Eleanor, como título em português), o primeiro filme de Scarlett Johansson enquanto realizadora e com June Squibb como a protagonista.

No elenco também fazem parte Erin Kellyman, Jessica Hecht, Rita Zohar e Chiwetel Ejiofor.

Inicialmente, o público português teve a oportunidade de assistir a esta estreia no dia 1 de novembro no The Chapel durante a 2ª edição do Tribeca Festival Lisboa.

Nesta produção temos Eleanor, uma viúva que aos 94 anos procura reencontrar-se em Nova Iorque, mas uma história contada por acaso arrasta-a para uma teia de afetos, ilusões e descobertas, onde a fronteira entre verdade e mentira se dissolve em humanidade.

June Squibb é a atriz responsável por dar vida de uma forma vibrante à espirituosa e orgulhosamente problemática Eleanor Morgenstein, uma mulher de 94 anos que, após uma perda devastadora, passa a contar uma história que ganha vida própria e torna-se perigosa.

Nas mãos de Scarlett Johansson são entrelaçados temas como o envelhecimento, a família, a perda e os limites do engano, transformando esta história de amizade e memória num retrato profundo da complexidade humana.

Divulgação: Sony Pictures Classics

Eleanor sempre se manteve envolvida e ligada às pessoas à sua volta. Depois de ter perdido a sua melhor amiga, ela muda-se da Florida para Nova Iorque para assim, viver com a filha e o neto, na esperança de se reconectar com a família. Em vez disso, ela sente-se ainda mais à deriva e invisível.

Eleanor é uma mulher sem filtros cheia de vida e com um lado rebelde que depois da partida da sua Bessie (Rita Zohar), leva a que ela viva uma grande dor e um vazio emocional, devido à ausência de alguém que foi a sua amiga mais íntima ao longo de 70 anos.

Um dia durante uma visita ao Centro Comunitário Judaico de Manhattan, ela calha entrar num grupo de apoio para sobreviventes do Holocausto, onde na realidade não pertence. No entanto, aproveita apenas para revelar uma história que, sem querer, lhe traz um nível de atenção que não pretendia.

Esta mesma história que Eleanor contou e que nem tinha noção das proporções que iriam tomar, era na realidade o testemunho de Bessie que sobreviveu ao Holocausto. Embora sem pensar, quando Eleanor decidiu assumir o relato de uma sobrevivente do Holocausto, esta mentira acabou por aumentar a sua dimensão até fugir do controlo.

Assim, ela vê-se envolvida numa narrativa que não esperava vir a acontecer, enquanto Nina (Erin Kellyman), uma jovem estudante de jornalismo a procura como amiga e mentora e que ainda, quer fazer um artigo sobre Eleanor. Quando as coisas vão longe demais, Eleanor tem de enfrentar a verdade.

Por quanto tempo irá a mentira de Eleanor durar? Será que a relação entre Eleanor e Nina irá resistir?



Divulgação: Sony Pictures Classics

Eleanor The Great é de um modo inesperado surpreendente e contém um tom caricato e outro mais emocional e caloroso. Apesar disso e devido a alguns desequilíbrios, fragilidades e falta de cuidados com alguns assuntos, a trama em si pode não agradar a todos. Contudo, aborda temas com o qual o público se identifica, como a perda, o luto, a empatia, a compaixão, o perdão e acima de tudo, o poder da amizade. Além disso, transmite a mensagem do quanto devemos viver a vida, não importa a idade e ainda, manter vivas, memórias importantes.

Os destaques deste filme vão para a interpretação maravilhosa e comovente de June Squibb e para as dinâmicas das ligações, tanto de Eleanor com Bessie, como a de Eleanor com Nina. É bonito de se assistir a uma amizade tão verdadeira e cúmplice como a de Bessie e Eleanor e além disso, acompanhar a construção da ligação inesperada de Eleanor com Nina. Estas são duas relações muito diferentes entre si, mas que é interessante ver como funciona a dinâmica de cada uma delas.  

No seu papel como Eleanor, June Squibb apresenta-a como uma mulher carismática e astuta que usa a idade avançada a seu favor e entrega uma combinação de ironia e um humor atípico enrolado numa língua afiada.  

Divulgação: Sony Pictures Classics

Temos aqui alguém que sofreu uma perda forte e profunda, enquanto quer ser dispensada e colocada num lar de idosos pela sua filha. Ela não tem muitas pessoas com quem conversar e ter a oportunidade de se abrir e partilhar os sentimentos de perder a sua melhor amiga e os seus arrependimentos. E é graças a Nina que começa a sentir-se mais confortável e aberta para conversar, embora inclua algumas mentiras pelo meio. Nina não só passa a passar muito tempo com Eleanor, mas à sua maneira, também consegue impactar esta idosa.

Aos poucos, vamos compreendendo os motivos pelos quais nasceu esta grande mentira criada por Eleanor que envolve boas intenções. Na realidade, quando Eleanor assume a identidade de uma sobrevivente do Holocausto, ela acredita que é por um bom motivo e que está a honrar e conservar a memória da amiga. É impressionante como a dor e o luto pode fazer as pessoas fazerem coisas inimagináveis.

Divulgação: Sony Pictures Classics

Com Eleanor the Great é explorado o tema da identidade e o poder do storytelling e da conexão humana. É oferecido algo que não vemos todos os dias, que é trazer uma história moralmente mais complexa e um tanto ambiciosa, cuja protagonista é uma idosa autêntica e onde June Squibb brilhou do início ao fim, sendo que tudo é tratado de um modo leve, apesar de por vezes, serem retratados assuntos mais delicados. Também existem aqueles momentos em que a pessoa fica com uma lágrima no cantinho do olho e outros em que algumas saídas de Eleanor têm a sua piada. Já a fotografia é satisfatória e a banda sonora é discretamente eficaz.

Em relação à estreia de Scarlett Johansson como realizadora resulta num desempenho que mostra potencial nesta função e cria curiosidade em querer acompanhar projetos desta figura que tanto conhecemos nos seus inúmeros trabalhos como atriz. Acredito que ela tem um futuro promissor numa carreira de realização, mas que precisa de tempo para melhorar as suas capacidades para tal.  

Apesar de por vezes ser um pouco previsível, Eleanor the Great é bom o suficiente para criar reações no espetador e em que June Squibb rouba genuinamente as atenções com a sua versatilidade, onde a sua performance complexa equilibra humor, profundidade emocional e vulnerabilidade.  

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