segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Fui a Londres ver a Peça de Teatro "All My Sons" protagonizada por Bryan Cranston

 

Bastaram 24 horas em Londres para ir assistir de propósito a mais uma peça de teatro que tem tido um sucesso tremendo desde a sua estreia. E agora, partilho de seguida com vocês, a minha opinião sobre a mesma.

All My Sons é a produção mais recente do West End com a realização do visionário Ivo Van Hove que tem esgotado todas as suas sessões no Wyndham’s Theatre e pode ser vista por um tempo limitado entre 14 de novembro de 2025 até 7 de março de 2026.

Logo após a 2ª Guerra Mundial, Arthur Miller escreveu esta peça em 1946, onde apresentou a sua visão perante o American Dream, cujos ideais ainda persistem até aos dias de hoje, mas com algumas mudanças. Esta história é inspirada em factos verídicos, onde Arthur Miller pega nesta definição de sonho americano e o vira para revelar o seu lado mais negro, os compromissos morais, a culpa e a negação que se podem esconder sob a superfície do sucesso.

Desta vez, para contar esta sua trama, o elenco é constituído por Bryan Cranston (Joe Keller), Marianne Jean-Baptiste (Kate Keller), Paapa Essiedu (Chris Keller), Tom Glynn-Carney (George Deever), Hayley Squires (Ann Deever), Richard Hansell (Dr. Jim Bayliss), Aliyah Odoffin (Lydia Lubey), Cath Whitefield (Sue Bayliss), Zach Wyatt (Frank Lubey), Stevie Raine (Raine) e Charles Dark, Sammy Jones e Zayne Tayabali, como Bert.

Esta é a história de Joe Keller, um empresário de sucesso que construiu o seu próprio negócio, sendo que durante a 2ª Guerra Mundial vendeu ao Governo, peças mecânicas que eram essenciais para os aviões de combate. Porém, essas mesmas peças estavam com defeitos, levando à morte de soldados e Joe foi exonerado dos crimes, enquanto quem acabou por levar com as culpas foi o seu sócio.

Aqui Arthur Miller convida o público para passarem um dia num quintal na América, onde são expostos os segredos de cada personagem, a culpa sentida e as suas próprias interpretações sobre o que significa alcançar o American Dream. Desde o início que ficamos a pensar sobre questões que continuam a criar discussões na atualidade. Será que se consegue alcançar esse sonho de um modo honesto ou na realidade, tem de incluir sempre um preço?

Joe Keller é um trabalhador com classe que tem muito orgulho naquilo que fez. Desde os 10 anos que tem sido independente, construiu a sua marca pessoal e trabalhou com muita intensidade até conseguir criar a sua loja de máquinas. E devido a isso, novas oportunidades de negócio surgiram e assim, passou a fornecer materiais necessários para a execução de trabalhos em relação à 2ª Guerra Mundial.

Para ele, sobrevivência significava sucesso e esse sucesso implicava não voltar a ser vulnerável. Por isso, acabou por ser levado a tomar decisões questionáveis que acabaram por trazer efeitos devastadores para outros. Ou seja, gerar lucro à custa da desgraça dos outros e sem pensar nas consequências. De uma certa forma, pode haver quem acabe por se relacionar, identificar alguém familiar com a mesma falta de valores morais apresentada por Joe.

Será que Joe Keller é o vilão da história ou é uma simples vítima da sua própria corrupção? Na opinião dele, a sua corrupção tinha boas intenções, pois o dinheiro ganho estava a cuidar da sua família e do futuro do seu filho. Para além disso, deu para se perceber imediatamente que ele faria qualquer coisa para proteger a sua família, mesmo que tivesse de ignorar os seus valores morais.

All My Sons é uma peça de teatro trágica e dramática muito bem executada sobre traição, família, morte e com uma ideologia muito própria, que é tão relevante para os tempos atuais, sendo que é muito realista e olha para o lado mais obscuro do American Dream.

Além disso, é uma obra de storytelling poderosa e profundamente emocionante que deixa com uma mensagem crucial de como o American Dream pode obrigar a que se pague um preço elevado que depois acaba por consumir uma pessoa por completo até que consiga aproveitar como deve ser as recompensas.

De uma maneira muito própria, esta história intensa transcende para uma fase de provocação e pressão que leva a um desmantelamento brutal deste sonho americano que é cada vez mais pertinente que seja discutido. Afinal vale a pena ter sucesso construído a partir de culpa e corrupção e assim, sacrificar os valores morais para alcançar o American Dream?   

All My Sons proporciona ao público uma experiência fenomenal e eletrizante que faz pensar e que tem performances espetaculares, onde Bryan Cranston faz um trabalho magnífico e magnético a desempenhar o protagonista que tanto pode mostrar um tom mais dramático, como de repente, apresentar outro mais divertido.

Toda esta tragédia de Arthur Miller acontece num espaço aberto que também é envolvido numa iluminação e banda sonora simples que combina perfeitamente na narrativa complexa que está a ser contada. A pessoa quer acompanhar esta relação complicada entre pai e filho, estar atenta a cada instante e consegue reconhecer as dinâmicas. E até de alguma forma, identifica-se com elas.  

Há muito tempo que eu acho que o verdadeiro talento de um ator é testado quando ele está a representar num palco. E com Bryan Cranston, isso comprovou-se mais uma vez. Eu já era admiradora do seu trabalho em filmes e séries, entre elas, Breaking Bad, que atualmente continua muito popular e é uma das séries mais bem classificadas no IMDb. Logo, no teatro ainda me surpreendeu mais e mostrou a sua excelente qualidade enquanto ator.

Ver um ator desta qualidade ao vivo lembra-nos porque é que o verdadeiro talento também se sente no palco. E é por isso que ele merece o destaque como um dos melhores atores da sua geração.

All My Sons é um outro exemplo de como a arte continua a brilhar e a oferecer-nos produções de elevada qualidade, sendo que neste caso apresentam as ilusões e a realidade pura e dura deste American Dream.

Apesar de haver quem possa não apreciar estes temas mais pesados, esta adaptação da obra de Arthur Miller vale a pena ser vista, pois poderão assistir ao vivo a uma peça de uma enorme qualidade com boas surpresas e onde podemos testemunhar a interpretação única de Bryan Cranston que vai sendo acompanhada por um grande elenco.

Depois de ter assistido à peça, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Bryan Cranston no Stage Door deste teatro e ainda houve tempo para uma breve conversa - falámos da peça, do seu percurso e claro, de Breaking Bad. Um momento que eu vou guardar!

Por isso, estou muito grata por ter conseguido ir ver All My Sons a Londres! Obrigada, Bryan Cranston e restante elenco! E acreditem, que há experiências que valem a pena a jornada!

De seguida, partilho um vídeo e mais fotografias desta noite maravilhosa!










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