sábado, 14 de novembro de 2020

Série "Reign" - a história da vida da emblemática Mary Stuart, Rainha da Escócia, a sua jornada a viver na corte francesa e o caminho que tem de percorrer para chegar ao poder

Reign é uma série de ficção histórica de 2013 que estreou no canal norte-americano, CW e está atualmente disponível na plataforma da Netflix, depois de ter terminado em 2017. Esta é uma criação de Stephanie SenGupta e Laurie McCarthy, que também têm um papel de produtores executivos, juntamente com Brad Silberling, John Weber e Frank Siracusa, sendo constituída por 4 temporadas, dividida em 78 episódios e tendo como Trevor Morris, o responsável da banda sonora e incluindo um tema de abertura dos The Lumineers, com o nome de Scotland.

 

Este drama é baseado na história da vida de Mary Stuart (Adelaide Kane) que foi rainha da Escócia de 1542 a 1567, mas também viveu durante algum tempo em França, onde se casou na sua adolescência com o príncipe e futuro rei desta nação, Francis (Toby Regbo). Assim, ela terá uma jornada bem longa cheia de obstáculos, desafios, inimigos, perigos e instabilidades que vão amadurecer esta jovem de tal forma que terá de tomar decisões bem difíceis a nível político que podem vir ou não, a prejudicar o bem-estar do seu povo e daqueles que mais ama.  


 

O elenco é constituído por Adelaide Kane (Mary Stuart), Megan Follows (Catherine di Medici), Torrance Coombs (Sebastian “Bash”), Toby Regbo (Francis), Jenessa Grant (Ayle), Celina Sinden (Greer), Caitlin Stasey (Kenna), Anna Popplewell (Lola), Alan van Sprang (Henry II da França), Jonathan Keltz (Leith), Sean Teale (Louis de Bourbon), Craig Parker (Stéphane Narcisse), Rose Williams (Claude), Rachel Skarsten (Elizabeth Tudor), Rossif Sutherland (Nostradamus), Charlie Carrick (Robert Dudley), Ben Geurens (Giden Blackburn), Spencer MacPherson (Charles), Dan Jeannotte (James Stuart), Jonathan Goad (John Knox) e Will Kemp (Henry Stuart).

 

Antes de falarmos da série em si, eu acho que é importante de referir a história geral da vida desta rainha. Mary Stuart nasceu no dia 8 de Dezembro de 1542, sendo que foi rainha da Escócia de 14 de Dezembro de 1542 até 24 de Julho de 1567 quando abdicou e depois faleceu no dia 8 de Fevereiro de 1587, com apenas 44 anos. O rei James V da Escócia faleceu quando ela era um bebé de meros dias, sendo que foi considerada como sucessora ao trono e coroada assim, como rainha, mas devido à sua idade, a sua mãe, Marie de Guise tornou-se regente da Escócia até Mary estar apta para tal.



 

Mary foi prometida em casamento ao futuro rei da França, Francis de Valois, sendo que durante a sua vivência na corte francesa, Mary casa-se mesmo com Francis, tornando-se rainha de França, apesar de ter sido por pouco tempo, devido à morte prematura do seu marido.  

 

Mary Stuart era a neta da irmã mais velha do rei Henry VIII, da Inglaterra. Este rei foi o primeiro a terminar com a religião católica em Inglaterra, tornando-se ele próprio num líder político e religioso à sua maneira, em que chega a ser designado por protestante e para além disso, ele teve várias esposas, nos quais resultaram em três filhos, entre eles, Elizabeth que segue a mesma religião protestante que o seu pai. Após a morte deste rei, a irmã mais velha de Elizabeth, Mary sucede ao trono após o seu irmão, Edward ter falecido muito novo e sendo ela, uma católica desde sempre, acabou por perseguir de uma forma intensa, todos os protestantes. Depois de Mary morrer, o trono britânico fica de novo vazio, sendo que a próxima parente acabaria por ser Elizabeth, mas nunca foi bem aceite perante a Igreja Católica, mesmo que ela tivesse sido coroada como a rainha de Inglaterra, levando a que o seu cargo estivesse constantemente em risco, devido à próxima pessoa que poderia ocupar, em que poderia ser Mary Stuart, a rainha católica da Escócia.


 

Esta série de ficção história conta o caminho que Mary Stuart da Escócia necessita de percorrer para chegar ao poder, onde inicia-se em 1557 pela sua saída repentina de um convento francês, onde esteve escondida desde os seus 9 anos, devido a uma tentativa de assassinato que sofreu e por isso, Mary com 15 anos viaja para a corte francesa, onde está prometida para casar-se com o príncipe Francis, futuro rei de França.

 

Desde o início que havia uma certa ameaça perante o casamento de Mary e Francis que era feita a partir de uma profecia dita por Nostradamus que referia que Mary iria ser a responsável pelo fim de Francis, antes que houvesse tempo de produzirem um herdeiro e a pessoa que mais acreditava nisso era Catherine di Medici, a mãe de Francis e rainha de França, que fez o necessário para impedir este relacionamento, mas acabou por não ser suficiente.

 

O casamento entre Mary e Francis era uma forma de proteger a Escócia, de uma possível invasão por parte de Inglaterra, por isso, uma aliança entre a Escócia e a França era fundamental que acontecesse, maioritariamente por razões políticas. Assim, vai sendo contado, o período em que Mary viveu em França, onde acabaria por casar-se com o príncipe Francis, unindo assim, a França com a Escócia.



 

Esta história desenrola-se maioritariamente na corte francesa do século XVI, onde Mary tem de aprender a viver de acordo com os seus costumes, onde por vezes sente-se isolada, apesar de ter ao seu lado, as suas damas de companhia, considerando-as como as suas melhores amigas, mesmo que nem sempre tomem as melhores atitudes para com ela. Não é só Mary que vai passar por dificuldades e peripécias, pois isso também irá ocorrer com as suas damas de companhia, Greer, Kenna, Lola e Ayle, em que cada uma tem o seu próprio desfecho, de um modo diferente, mas curioso.

 

Mary era considerada como uma jovem doce e ingénua que sempre quis casar-se por amor, mas será que isso irá acontecer para com ela? Ela começa a aprender aos poucos, o que significa ser um membro da família real e por isso não vai ter uma vida nada facilitada quando vai viver para a corte francesa, tendo como uma das suas inimigas, a rainha Catherine.



 

Este drama histórico está repleto de muito romance, amizades, traições, vinganças, segredos, intrigas, paixões improváveis, estratégias, vilões, escândalos, lutas, conspirações, batalhas, envenenamentos, assassinatos bem sucedidos, forças do mal que são também misturados com mistérios e um lado mais místico que cria um bom suspense.

 

Mary passa por algumas tragédias, dificuldades e obstáculos na sua vida, onde teve que viver num período longo, escondida dos seus inimigos que a queriam eliminar para obter o poder da Escócia, mas isso não impediu que ela deixasse de ter o seu código moral que por vezes implicou-a em decisões bem importantes.



 

Esta é uma rainha determinada que está constantemente a enfrentar e a ser alvo de ameaças vindas de todo o lado, seja de França, Inglaterra ou mesmo da própria Escócia, chegando a um ponto que ela não sabe em quem realmente deve confiar, mas isso não a deixa desistir de lutar por aquilo que quer ou seja tornar-se numa líder digna para o seu país.

 

Mary é uma pessoa corajosa que tem as suas próprias opiniões, mas sente-se rodeada de inimigos, mesmo vivendo na corte francesa, por isso todo o cuidado é pouco para esta jovem que quer sobreviver e seguir com as suas obrigações, por isso, também vemos um amadurecimento na personalidade de Mary, onde as situações pelo qual ela vai passando são vitais para a sua aprendizagem não só como pessoa, mas também como líder.


 


A vida de Mary acaba por ser uma aventura com tragédias pelo meio, em que durante a sua aprendizagem e experiências adquiridas na corte francesa, Mary vai passar por momentos críticos, sendo que por vezes, sente-se impotente sem saber o que deve fazer, mas com tempo ela torna-se numa mulher forte e ambiciosa que quer chegar ao poder, mas será que ela vai ter sucesso num dos seus objetivos que é reivindicar o direito ao trono inglês? Dá para ver uma boa evolução da Adelaide Kane a interpretar toda a trajetória e desenvolvimento de Mary Stuart, onde ficamos surpreendidos pela positiva com o seu trabalho.



 

Para além disso, chegou a um ponto que a Escócia passou a ser protestante, por isso, acabou por tornar-se num desafio para Mary enfrentar o seu país, enquanto católica, pois já não aceitavam a sua religião, mas ela tinha esperança que o filho que ela viesse a ter, denominado por James VI poderia tornar-se no herdeiro do trono tanto da Escócia, como da Inglaterra.



 

Esta história adaptada não seria a mesma coisa, senão envolvesse um triângulo amoroso entre Mary, Francis, o príncipe de França e o seu meio-irmão, Sebastian ou Bash que é o filho bastardo do rei Henry II, mas acabou por não durar muito tempo.

 

Ao longo dos episódios, decorreram algumas mudanças relativamente à história original, em que determinadas personagens foram criadas, com o objetivo de atrair o público, como foi o exemplo do Sebastian que na minha opinião foi uma ótima adição, apesar de não ter gostado muito da forma como desenvolveram os acontecimentos para esta personagem.  



 

Mary e Francis têm uma relação bem carinhosa um com o outro, em que o público acaba por criar uma ligação especial para com eles, sem que se saiba da saúde frágil deste delfim, mas sem dúvida que havia uma química evidente entre eles que foi bonito de se ver, durante o período em que passaram juntos e a forma como o amor destes jovens foi crescendo.



 

Uma das minhas partes favoritas da série foi as cenas partilhadas entre a Mary e Catherine, pois foram bem interessantes de se acompanharem, onde têm uma ligação que pode ser de ódio ou até mesmo de respeito, dependendo das circunstâncias que estão a acontecer naquele momento.

 

Catherine di Medici é uma mulher excecional, inteligente, calculista e uma manipuladora eficaz que não olha a meios para atingir os seus fins, principalmente se estão relacionados com os seus filhos, pois ela está sempre do lado deles, por mais erros que possam vir a cometer.

 



Quando precisa de ser, Catherine tem mesmo uma maldade profunda dentro dela, conseguindo influenciar todos ao seu redor para os seus planos e isso dá para se perceber, devido aos seus comportamentos, pois fará o que for necessário para conseguir o que quer, nem que tenha de prejudicar outros que se metam no seu caminho e em que um dos seus aliados será Stéphane Narcisse, um lorde chanceler francês.


 

Está é uma das melhores personagens femininas que vi até hoje em que Megan Follows é o destaque da série, pois foi brilhante, incrível e sensacional a interpretar Catherine di Medici, onde podemos ver lados desta mulher, desde os seus momentos como vilã que pode incluir envenenar pessoas que são um obstáculo para ela e até em situações em que está mais vulnerável e conseguimos perceber aquilo que realmente é mais importante para ela, mesmo que ela não mostre essas emoções, pois não perde a sua postura.


 

A história também é constituída por momentos mais cómicos partilhados entre Catherine e o rei Henry II da França e também com outras personagens. Também temos a oportunidade de acompanhar o reinado de Henry II, durante o período tanto da sua maldade como da altura em que torna-se num louco, levando a que tome decisões precipitadas e ao mesmo tempo terríveis para aqueles que estão ao seu redor.

 

Neste drama também são abordados momentos importantes na história daquela época, tais como, a peste negra e a quantidade de vítimas que foi fazendo, a forma como a corte francesa sobrevive apesar de ser constantemente alvo de ameaças exteriores, a rivalidade entre Mary Stuart com a sua prima, Elizabeth I, rainha de Inglaterra que têm religiões opostas e também a guerra entre os católicos e protestantes que vai sucedendo na Escócia, mas será que este último grupo vai conseguir chegar ao poder ou irá Mary conseguir evitar, através da produção de um herdeiro que poderá governar o reino em paz?



 

Numa história de época também é apresentada a forma como funcionava a corte, tanto a francesa como a inglesa quando é mostrada uma parte da vida de Elizabeth Tudor. As cortes estavam cheias de pessoas falsas que só queriam prejudicar e subir a sua posição perante os outros, sendo que os boatos eram algo frequente de acontecer na corte francesa, onde eram espalhados numa velocidade extrema, em que criavam intrigas pelo reino, de tal forma que era muito difícil de confiar em alguém.


 

Apesar da série ter algumas falhas no seu argumento, esta é constituída por uma cinematografia bem realizada, tendo bons efeitos visuais que inclui paisagens bonitas de se ver, uma fotografia bem escolhida e adequada para esta produção e mostra o modo como a corte francesa era definida com todo o seu glamour e luxo, sendo também caraterizada por conter uma boa banda sonora, um cenário muito bem construído para adequar-se à época, onde se desenrola a história e com um guarda-roupa maravilhoso e requintado que teve a responsabilidade de Metedith Markworth-Pollack.



 

Também conseguimos ver até onde a pessoa vai para ficar com o poder que tanto pretende alcançar, a quantidade de dificuldades que reinos, tais como, França, Escócia e Inglaterra vão passando, maioritariamente por razões políticas, em que essas decisões poderiam influenciar o futuro de uma determinada nação e as alianças que vão sendo feitas entre países, que incluem promessas de casamentos, mas que podem vir a ser quebradas, em que tudo pode mudar, de repente. Será que algumas das personagens vão sofrer as consequências dos seus atos e comportamentos?




 

A história também não é só drama, pois também é constituída pelos seus momentos mais divertidos e leves que incluem danças engraçadas que vão decorrendo em alguns eventos organizados tanto para a corte francesa ou para a inglesa ou mesmo as atividades exteriores que iam participando, tendo assim ligeiramente, a sua piada.


 

Infelizmente na última temporada da série, eu senti que os acontecimentos que se desenrolaram ao redor de Mary foram bem apressados e deveria ter havido mais tempo para serem explorados temas e situações relacionados não só com Mary, mas também com Elizabeth que eu acredito que teriam sido úteis para dar o final à história com muito mais convicção.



 

Para além disso, dá para ver a quantidade de mudanças feitas que não são fiéis à verdadeira história de Mary, pois tinham o objetivo de criar mais reviravoltas, intrigas e surpresas para as suas personagens, criando assim alternativas na jornada de cada uma delas ou até mesmo adicionando personagens que não existiram, dando a elas uma relevância que por vezes, faz desviar-nos das partes mais verídicas que acabam por ser as mais importantes e por isso, eu acredito que nem sempre foi feito da melhor forma e gostaria de ter visto mais cenas reais e assim aprendermos muito mais sobre a história desta rainha, dos seus aliados e inimigos.


 

Houve uma liberdade criativa na série que teve alguns resultados interessantes, mesmos que tenham sido também constituídos por situações que nem sempre faziam sentido. Assim, nem sempre existiu um compromisso para com a história, pois as pessoas por um lado queriam ver uma versão diferente do real, mas por outro, desejariam apenas um bom equilíbrio para o desenvolvimento da história, sendo que por vezes afastava-se mais do original do que deveria. Existiram momentos que mudaram completamente a história de Mary de tal forma que a pessoa fica na dúvida se aconteceu ou não na vida real desta mulher, mas sem dúvida, que nos deixa a pensar e para além disso, também haviam partes que até seriam interessantes se tivessem acontecido na realidade.

 


Na realidade, Mary nunca viveu num convento, mas sim cresceu e foi educada na corte francesa, desde criança, sendo que as suas damas de companhia tinham o mesmo nome da rainha e até eram conhecidas como as 4 Marys e para além disso, nem sequer existiu um Tomás de Portugal, um dos pretendentes de Mary que apareceu na 1ª temporada, mas estes são alguns dos exemplos que foram criados apenas pelos escritores da série que também inclui a beleza de Mary que não era muito referida na história real.

 

Esta história conquistou uma boa base de fãs, sendo adequada a todas as faixas etárias, apesar de ter sido feita para um público mais jovem, em que consegue prender o espetador, proporcionando momentos emocionantes, mesmo com as mudanças históricas, mas deixa refletir sobre como era a vida destas mulheres que nunca pararam de lutar pelos seus direitos, enquanto membros da sociedade e assim virem a ganhar o respeito dos outros, pois mostra a dificuldade que é alcançar a igualdade entre homens e mulheres e a posição das mulheres na sociedade deste tempo.

 

Assim, esta série é constituída por uma lista vasta de personagens femininas com personalidades fortes que têm comportamentos específicos que são necessários para manterem-se com uma boa reputação, mas que por vezes tomam atitudes surpreendentes, em que deixam o espetador a querer torcer por estas.


 

Chegamos à conclusão que Mary Stuart, Catherine di Medici e Elizabeth Tudor foram três grandes líderes para os seus respetivos países e mostraram que sabem governar e cuidar das suas nações, mesmo que não sejam homens e que ainda há muito que esta sociedade tem para evoluir. Elas são mulheres poderosas têm uma força e inteligência fascinante em que tiveram um grande impacto no seu tempo e que conseguem sobrevivem a ameaças constantes, tornando-se assim, numa história bem interessante de acompanhar.

 

Num geral, a história não deixa de ser maravilhosa e surpreendente, cativando o espetador de formas inesperadas, através das suas personagens emblemáticas, mas podia ter sido muito mais equilibrada relativamente aos detalhes que não são fiéis ao que aconteceu na realidade e o que foi simplesmente criado pelos argumentistas da série que por vezes teve uma abordagem mais juvenil.



 

Mary Stuart é uma das rainhas mais emblemáticas do século XVI, em que era descendente legítima do rei James V da Escócia, tendo a sua história já ter sido abordada de diversas formas, mas continua a ser interessante em acompanhar as novas produções que vão sendo disponibilizadas e também acredito que houve muito mais sobre a história de Mary que não chegou a ser contada na série e espero que possa vir a acontecer no futuro numa outra adaptação.




Reign é um drama de época cheio de reviravoltas com alguns toques de modernidade que são fáceis de serem notados que tem um lado místico, onde a pessoa vai descobrindo ao longo da série e que de certa forma retrata a época exuberante que ocorria em França no século XVI. Apresenta uma certa essência da verdade da história de Mary Stuart, tendo uma versão alternativa para a vida desta rainha, sendo uma produção de ficção, em que o público cria empatia com a maior parte das personagens e isso é relativamente importante para que seja feito um bom trabalho não só através dos atores, mas também por toda a equipa técnica. Não é perfeita, mas não deixa de ter o seu valor, principalmente pela ideia que tiveram em produzir uma história de época apresentada de um modo mais moderno e atrativo e uma versão diferente e não completamente fiel ao real, mas com caraterísticas daquele tempo que acabam por criar a curiosidade no público e por isso, eu aconselho a verem e a tirarem as vossas próprias conclusões.

domingo, 8 de novembro de 2020

Minissérie "The White Queen" - história da guerra em Inglaterra entre a Casa de York e a Casa de Lancaster, contada de acordo com a perspetiva de Elizabeth Woodville, Margaret Beaufort e Anne Neville

 

The White Queen é uma minissérie de 10 episódios de 2013 que foi transmitida pelo canal britânico BBC One, pelo norte-americano Starz e atualmente está disponível na HBO Portugal e Netflix, sendo que é baseada nos romances históricos da escritora e produtora executiva, Philippa Gregory designados por The White Queen, The Red Queen e The Kingmaker’s Daughter. Com uma produção da BBC, Company Pictures e Czar Television, em que foi escrito por Emma Frost, Lisa McGree, Malcolm Campbell e Nicole Taylor, tendo como realização de James Kent, Jamie Payne e Colin Teague e banda sonora de John Lunn e para além disso, também venceu 3 Globos de Ouro, um Emmy e outros prémios de reconhecimento.

 

A história decorre durante o período da Guerra das Rosas, em que não terminam os conflitos entre a casa de York e a casa de Lancaster que têm como objetivo principal, obter o trono de Inglaterra. Tudo inicia-se em 1464 quando estes dois lados da mesma família não conseguem chegar a um acordo sobre quem é o rei legítimo de Inglaterra e por isso não vão descansar enquanto não conseguirem derrotar os seus rivais respetivos. No meio desta guerra, estão três mulheres que podem influenciar tudo o que vai acontecendo e são elas, Elizabeth Woodville (Rebecca Ferguson), Margaret Beaufort (Amanda Hale) e Anne Neville (Faye Marsay) que querem a todo o custo, chegar ao poder.  

 

O elenco é constituído por Rebecca Ferguson (Elizabeth Woodville), Max Irons (Edward IV de Inglaterra), Amanda Hale (Margaret Beaufort), Faye Marsay (Anne Neville), James Frain (Richard Neville), Aneurin Barnard (Richard, Duque de Gloucester), Ben Lamb (Anthony Rivers), Tom McKay (Jasper Tudor), David Oakes (George, Duque de Clarence), Eleanor Tomlinson (Isabel Neville), Caroline Goodall (Cecily, Duquesa de York), Janet McTeer (Jacquetta Woodville), Rupert Graves (Thomas Stanley), Veerle Baetens (Margaret de Anjou), Oscar Kennedy (Henry Tudor), entre outros.

 

Já passaram cerca de 30 anos, desde que os York que representam a rosa de cor branca e os Lancaster que têm a rosa de cor vermelha têm estado numa guerra que parece não ter fim, com perdas para os dois lados, pois querem a todo o custo, obter o trono de Inglaterra.  




Edward IV é um representante da família York e juntamente com os seus dois irmãos, George e Richard querem vingar-se da morte do pai. Assim, Edward IV sobe ao trono e torna-se no rei da Inglaterra, com a ajuda do seu primo, Richard Neville, Lorde Warwick, mas nem todos concordam com esta notícia, principalmente os membros da casa Lancaster, mas será que eles vão conseguir tirá-lo do trono?

 

Infelizmente, Edward é por vezes demasiado manipulado e nem sempre consegue ver aquilo que está realmente à sua frente, mesmo que seja avisado de tal, chegando a um ponto que pode sair prejudicado, pois pode não ter os melhores aliados ao seu lado.



 

Após ter perdido o seu marido, John Grey, numa batalha onde lutou pelos Lancaster, Elizabeth Woodville fica com dificuldades que mete em causa, a criação dos seus dois filhos, Thomas e Richard Grey e por isso, ela pede ao rei Edward IV que lhe devolva as terras do seu falecido marido.

 

O rei Edward IV fica fascinado pela beleza desta mulher e diz-lhe para enviar a sua situação por escrito que ele depois tratará do assunto. Depois de conhecer Elizabeth, ele não consegue deixar de pensar nela, tentando conquistá-la, acabando por tornar-se numa tarefa difícil até que um dia, eles casam-se em segredo, uma situação que não vai agradar aos membros da sua corte inglesa, principalmente, a sua mãe, Cecily, Duquesa de York e o seu primo, Richard Neville.


Para eles, Elizabeth é uma camponesa viúva muito mais velha do que Edward e que já tem filhos do seu anterior casamento, mas um dos obstáculos principais é sem dúvida, pertencer à casa Lancaster que são os seus rivais e por isso, não é digna de ser a rainha de Inglaterra e pode colocar o futuro de Edward em causa, mas será que isso vai acontecer?

 


Elizabeth Woodville faz parte de uma família que é leal e apoia a causa dos Lancaster, em que a sua mãe, Jacquetta Rivers já tinha sido dama de companhia da rainha Margaret de Anjou e aconselhou-a a aproximar-se do rei Edward IV. Depois, ela acaba por mudar-se para o lado dos York, devido ao amor que sente pelo marido e seus filhos, sendo que ela é completamente apaixonada por Edward e precisa de proteger as pessoas que mais ama que também inclui os seus filhos.



 

Para além disso, Elizabeth pertence a uma linhagem de mulheres que possuem dons específicos, tais como o poder de ver que leva a premonições que poderá ajudá-la a saber o que vai acontecer no futuro. Ela sempre foi considerada como suspeita de praticar atos de bruxaria, mas será que alguém vai conseguir comprovar?

 

Elizabeth é uma mulher bem peculiar e decidida nas suas convicções, tentando fazer o que ela acha que é mais correto, mesmo que tenha influência perante o rei, mas sem dúvida, que vai ter uns bons adversários pela frente, entre eles, temos Margaret Beaufort, uma mulher muito religiosa que só quer ver o seu filho Henry Tudor no trono, pois acredita que é a vontade de Deus e Anne Neville, a filha do lorde Warwick tem uma mudança significativa na sua personalidade após casar-se com o irmão mais novo do rei, Richard, o duque de Gloucester.


 

Margaret Beaufort é uma mulher muito lutadora em que cria planos para colocar o seu filho, Henry Tudor, da casa Lancaster no trono de Inglaterra, pois acredita que é o destino do mesmo, apesar de não ter estado presente durante o seu amadurecimento, mas será mais difícil do que ela julga, principalmente quando aparece Elizabeth, no seu caminho.


 

O lorde Warwick é um manipulador que quer controlar o trono e usa os seus peões para conseguir colocar os seus planos em prática. Ele não fica nada satisfeito com a notícia de que o seu rei se casou, porque essa pessoa podia pôr em causa tudo aquilo que ele tinha planeado para Edward, tornando-se assim, num obstáculo, pois não seria alguém que ele conseguisse controlar. Para além disso, ele utiliza quem for preciso, nem que tenha que ser, a sua própria família para criar as alianças necessárias para conseguir aquilo que quer, mas será que ele vai sofrer com as consequências dos seus atos?


 

Este drama é contado de acordo com a perspetiva de Elizabeth Woodville, Margaret Beaufort e Anne Neville e decorre antes da Dinastia Tudor assumir o poder e governar o país, numa época bem turbulenta e conturbada para a história de Inglaterra. Estas são mulheres ambiciosas, bonitas, fortes e implacáveis que querem o poder de Inglaterra, por isso vai haver uma luta intensa entre elas que inclui planear, manipular e seduzir os aliados necessários para apoiarem a causa respetiva e sem dúvida que vai ser mesmo interessante de se acompanhar.

 

Esta é uma história cheia de reviravoltas, perigos e batalhas que tem amor, romance, perdas, traições, mortes, intrigas, drama, vingança, fantasia e sedução no meio de uma disputa entre lados da mesma família, a casa de York e a casa de Lancaster que trazem consequências devastadoras para o reino da Inglaterra que continua dividida, devido a esta guerra que parece nunca mais terminar, mas será que algum dia irá existir paz entre os York e os Lancaster?





 

A minissérie está bem construída e desenvolvida a nível técnico, sendo bem representada para o seu contexto histórico e tendo uma boa escolha de banda sonora, em que também mostra momentos bonitos de se ver, tais como a coroação da Elizabeth, que é caraterizada pelo requinte e extravagância utilizada para a cerimónia.

 

Ao longo dos episódios temos a oportunidade de ver que a lealdade não é tudo para uma pessoa e que são múltiplos, os interesses que podem fazer alguém mudar de lado e por isso, é difícil saber em quem se pode realmente confiar naquela corte inglesa, por isso é importante que a pessoa esteja com muita atenção com tudo o que vai decorrendo para não se perder, pois são muitas as histórias e personagens que vão sendo apresentadas.


 

Esta é daquelas histórias que a pessoa não sabe bem em quem torcer, pois cada uma destas personagens têm o seu próprio plano por concretizar e nem sempre têm razão em determinadas atitudes que vão cometendo, mas para mim sempre foi interessante saber mais sobre a história de Inglaterra nos diferentes séculos e neste caso não é exceção, pois temos a oportunidade de saber mais sobre uma época que foi muito falada, como foi a Guerra das Rosas.

 

The White Queen é uma história de época bem interessante de assistir e abordada do ponto de vista de três mulheres que foram fundamentais nos acontecimentos que decorreram, sendo que nos dá uma certa noção das razões pelas quais ocorreu esta rivalidade que durou muitos e muitos anos entre a casa York e a casa Lancaster, em que são constituídas por cenas que podem surpreender os espetadores, mas que mesmo assim, vale a pena verem, pois ficamos com uma certa ideia de como tudo aconteceu naquela altura, apesar de haver alguns momentos ficcionais pelo meio e também temos boas interpretações por parte dos atores.


quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Documentário "#Anne Frank - Parallel Stories" - uma ótima partilha das palavras do diário de Anne Frank e o testemunho de sobreviventes do Holocausto

 

#Anne Frank – Parallel Stories (Anne Frank – Vidas Paralelas, em português) é um documentário de 2019, com a duração de 1h34 que está disponível na plataforma da Netflix. É produzido por Nexo Digital, 3D Produzioni, em colaboração com Anne Frank Funds, fundado por Otto Frank, Basel e a Sky Arte, sendo escrito e realizado por Sabina Fedeli e Anna Migotto, com banda sonora de Lele Marchitelli e tendo como participação especial, a atriz Helen Mirren.

 

Este documentário é completamente dedicado à vida de Anne Frank (1929-1945) que nasceu no dia 12 de Junho em Frankfurt, em que foi uma das muitas milhares de vítimas do nazismo durante a 2ª Guerra Mundial que não descansava enquanto não eliminasse todos os judeus e para além disso, também são partilhados os testemunhos de cinco sobreviventes que sofreram e muito, devido ao Holocausto, sendo elas, Andra Bucci, Tatiana Bucci, Sarah Lichtsztejn-Montard, Helga Weiss e Arianna Szörényi.

 

Como narradora, a escolha recaiu na atriz Helen Mirren que ao longo do documentário foi lendo excertos dos muitos dos pensamentos e opiniões que Anne Frank escreveu no seu diário que já foi entretanto lido por milhares de pessoas, tornando-se numa das obras mais vendidas e de maior sucesso, a nível internacional. Esta atriz foi uma boa escolha para esta tarefa, pois fê-lo de um modo contagiante na forma como foi lendo em determinadas páginas cada pedaço das palavras escritas por Anne Frank e também conta a história tanto dela, como da sua família, mas sem dúvida, que deixa a pessoa pensar e refletir sobre a mesma.

 



O cenário maioritariamente utilizado no documentário é uma representação do quarto de Anne Frank durante os seus dois anos de confinamento no esconderijo secreto em Amesterdão, nos quais foi criado por elementos do Piccolo Theatre, em Milão, integrante da União de Teatros Europeus, sendo que o seu resultado final foi fiel e real ao esperado, onde incluía objetos da vida Anne, fotografias que colou nas paredes e os cadernos que escreveu.

 

O seu quarto de adolescente tal como era em 1942, com os vestígios da sua vida e onde escreveu o seu diário foi partilhado durante dois anos, com um dos convidados na casa, o Sr. Pfeffer, um dentista com mais de 50 anos com quem ela nunca se deu bem, tendo sido constituído por duas camas viradas uma para a outra e uma secretária, mas nas paredes estavam fotografias de celebridades que Anne sempre admirou, tais como, Deanna Durbin, Ginger Rogers e Greta Garbo em Ninotchka e a estrela do cinema alemão Heinz Rühmann, Ray Milland e depois, a outra paixão de Anne que era Sonja Henie, uma campeã mundial de patinagem no gelo da Noruega. Estes acabavam por ser fragmentos de vidas alheias que davam um toque especial à dela, onde ela observava as suas roupas e penteados, mas também tinha um interesse especial pela realeza, em que também tinha no seu quarto, uma foto da família real holandesa e o rosto da jovem Isabel, a futura rainha de Inglaterra.

 


O Diário de Anne Frank foi publicado originalmente em 1947 pelo seu pai, Otto Frank, em que Anne escreve sobre os momentos que viveu em confinamento como forma de fugir aos nazis durante a 2ª Guerra Mundial, desde junho de 1942 até Agosto de 1944 quando foi apanhada e transportada para um campo de concentração. Infelizmente, a sua vida não tem um final feliz, pois após ter vivido durante 2 anos num esconderijo do prédio, situado na rua Prinsengracht 263, em Amesterdão, esta acaba por morrer com 15 anos, num campo de concentração alemão, devido a uma epidemia de tifo.

  

Anne Maria Frank é uma jovem com muitos sonhos em que simplesmente deseja ter uma vida normal e ser livre para que possa viver de forma semelhante a qualquer outra rapariga da sua idade e durante os dois anos que esteve a viver em confinamento desde o dia 6 de Julho de 1942, ela resolve utilizar um diário para retratar cada um dos seus dias e as suas preocupações constantes sobre diversas situações que lhe vão sucedendo.

 

Quando Anne resolveu começar a escreveu no seu diário durante o tempo em que esteve escondida, ela não quis anotar os factos como a maioria das pessoas faria, mas sim, criar uma amizade com ele, através uma amiga imaginária chamada Kitty. Esta amiga iria tornar-se num tipo de companhia para Anne que ajudava-a a passar por vários momentos conturbados e difíceis que foi passando durante dois anos.

 


Anne sempre quis tornar-se numa escritora, colocando tudo o que se passou durante o seu isolamento, desde o que ia sentindo até os seus próprios pensamentos, pois ela sempre quis deixar a sua marca no mundo e não viver em vão como a maioria das pessoas, tornando-se útil de alguma forma e trazer alegria a todos, mesmo que não chegasse a conhecer os seus leitores e sem dúvida que conseguiu devido às palavras cativantes que foi partilhando no seu diário.

 

Dá para ver que Anne é uma adolescente cheia de vida, ambição e imaginação e sem dúvida, talentosa, inteligente e curiosa sobre o mundo, tendo uma certa opinião política com determinadas ideias que não costuma ser frequente para uma rapariga daquela idade que não imaginava que ia passar dois anos da sua vida escondida dos nazis numa casa em Amesterdão privada da sua liberdade.

 

Ao longo das páginas do diário, ela partilha as suas alegrias, ambições, medos e desilusões, mas não deixa de ser doce, irónica e engraçada e conta a Kitty como consegue distrair-se por horas intermináveis e também critica todos aqueles que se queixam do seu comportamento, dos seus modos e da personalidade, mas não deixa de ter esperança que tudo vai melhorar um dia.


 

Anne gosta de estudar e de ler com intensidade, de tal forma, que o seu humor vai mudando frequentemente, mas a pessoa consegue ver Anne, através das palavras do seu texto, sendo quando partilha as suas emoções perante o seu primeiro amor, Peter ou quando ela vai descrevendo o ambiente ao seu redor e também vai comentando a situação política existente, levando a que tenha uma certa noção do que se passa na sociedade. Para além disso, a sua perspetiva perante o seu esconderijo e anexo respetivo é transmitida ao mundo, de um modo que deixa a pessoa surpreendida.

 

Para Anne, Kitty é o seu conforto que a consola, um tipo de cura para a alma, pois é uma forma de desabafar os conflitos e dilemas que vai tendo perante determinados temas, utilizando metáforas para descrever como tem vivido e o que tem sentido e fica com a sensação que tudo pode ser contado a um amigo imaginário, o primeiro leitor entre muitos que Anne sonha ter um dia, quando tudo tiver passado, pois ela era de tal forma otimista que acreditava que voltaria à escola muito em breve e que a sua liberdade estava a aproximar-se, mas infelizmente não foi isso que aconteceu.


No dia 4 de Agosto de 1944, depois de Anne estar dois anos escondida, um oficial da SS, juntamente com alguns elementos da polícia holandesa foram a casa dela após uma denúncia anónima, onde subiram as escadas do abrigo, descobrindo o segredo que estava por detrás de uma estante cheia de livros, mas ao mesmo tempo, uma barreira fina que tinha protegido a vida clandestina de Anne que foi partilhada com o pai, Otto, a mãe, Edith, a irmã, Margot, Auguste e Hermann van Pels, o seu filho de 16 anos, Peter e Fritz Pfeffer, sendo que Anne acabou por ser detida e deportada, chegando ao campo de trânsito de Westerbork na Holanda oriental e depois para os campos de concentração de Auschwitz na Polónia e Bergen-Belsen na Alemanha, onde infelizmente acaba por vir a falecer neste último destino em 1945 com apenas 15 anos.


 

Apesar de Anne e a sua irmã Margot terem morrido em Bergen-Belsen, não se sabe o sítio específico, onde elas foram enterradas, pois naquela altura todos os mortos eram colocados em valas comuns feitos pelos próprios prisioneiros, mas mesmo assim elas têm um memorial nesse local para simbolizar e homenageá-las de certa forma.

 

Anne está representada em várias fotos do arquivo da família, mas apenas existe até hoje, um vídeo que mostra Anne debruçada sobre a janela da sua casa em Amesterdão, onde os Frank viviam antes de se esconderem, observando o que se passava no exterior e há quem comente que ela tinha um sorriso encantador que apesar de ser uma menina cheia de vida, de acreditar que as pessoas são realmente boas lá no fundo e agarrar-se aos seus ideais, infelizmente não conseguiu sobreviver, sendo que desapareceu juntamente com um milhão e meio de outras crianças e adolescentes como ela.



Anne influenciou milhares de pessoas, através das suas palavras e recusou-se a deixar de ter memórias e esperança, sendo que dentro da capa do diário, ela escreveu “sois gentil et tiens courage” ou seja "sê gentil e tem coragem". Durante mais de 70 anos, as palavras de Anne fizeram milhões de jovens crescer de repente e aprenderem a nunca desistirem, fazendo com que o seu rosto tivesse um poder crucial quando falamos do Holocausto, como sendo considerado como o maior genocídio documentado do século XX.

 

A pessoa até fica com vontade de imaginar como seria a vida de Anne Frank se tivesse sobrevivido e até acredito que seria repleta de lições que iriam influenciar ainda mais a sociedade através do seu testemunho, mas tivemos a oportunidade de ler o seu diário que tinha a sua forma de ver o mundo e os desabafos que foi fazendo à sua amiga imaginária chamada Kitty, que acabava por ser um tipo de conforto para ela e para não se sentir tão sozinha e isolada.

 

O tema também vai abordando o Holocausto e o que este período de ódio significou para as pessoas que viveram naquela época e como influenciou as gerações futuras, principalmente os familiares dos sobreviventes do mesmo. Foi interessante saber que algumas destas sobreviventes chegaram a conviver com a própria Anne Frank, mesmo que tenha sido por um tempo muito limitado.

 


Neste documentário são mostradas fotos de Anne Frank e também vídeos de arquivos sobre os campos de concentração e prisioneiros respetivos, mostrando as condições terríveis em que viviam, sem qualquer tipo de higiene. Também é constituído por relatos bem impressionantes de pessoas que passaram por situações complicadas em campos de concentração situados em diversas localizações seja na Alemanha ou Polónia, sem saberem se iam ou não conseguir sobreviver e também por contribuições por partes de especialistas nestes assuntos, sejam historiadores ou mesmo psicólogos que vão dando a sua visão sobre tudo o que aconteceu tanto no Holocausto, como na 2ª Guerra Mundial.

 

Traz uma visão simples e verdadeira de uma forma que o espetador consegue compreender tudo o que vai sendo contado sobre a vida de Anne Frank e o Holocausto, seja qual for, a sua faixa etária, levando a que adquira mais conhecimento mais sobre esta parte da história que foi um pesadelo para milhares de pessoas.

 

Quando ficamos a conhecer mais sobre como era o funcionamento dos campos de concentração naquela altura ficamos surpreendidos com a quantidade de maldade existente e como a vida daqueles prisioneiros era dura, mas nunca perdiam a esperança, por mais sofrimento que viessem a passar e isso foi o que aconteceu com as mulheres que sobreviveram nestes campos e quiseram partilhar as suas histórias.

 

O otimismo alimentava a ilusão de uma possível liberdade e queriam acreditar num futuro melhor, a todo o custo, mas estas pessoas estavam rodeadas de escuridão e perigo, que tinham uma busca desesperada por uma saída, pois não recebiam quase nada para comer, muito menos para beber dado que a água estava disponível apenas uma hora por dia e só havia uma sanita e lavatório para vários milhares de pessoas. Muitos nunca voltaram dos campos de concentração, principalmente crianças e adolescentes, pois era preciso crescer depressa, aprender disciplina e sobreviver, mas muitas vezes, alguns só sobreviviam por mero acaso.

 

Naquela altura, haviam transferências de uma grande quantidade de prisioneiros judeus do campo de concentração de Auschwitz para Bergen-Belsen na Alemanha, em que uma das marcas principais do acampamento era o tifo e a epidemia espalhou-se através dos piolhos. O tifo até chegou a ser considerado como um bom aliado na luta dos nazis contra os judeus, pois acabava por ter o mesmo efeito e função que as câmaras de gás, pois aumentavam o número de prisioneiros que morriam em condições terríveis, por isso os nazis estavam plenamente satisfeitos com os resultados desta doença, pois a tendência deles era mandarem crianças para as câmaras de gás.




Hitler sempre partilhou o seu ódio pelos judeus revelando que faria os possíveis para que fossem todos eliminados. Assim, os nazis tinham um ódio por estas pessoas de tal forma que quando decidiram eliminar fisicamente os judeus, eles resolveram criar campos de trânsito que tinham como objetivo principal, o extermínio total dos judeus. São vários os sítios, onde podemos perceber a violência extrema cometida pelos nazis, tais como o que está no memorial de Westerbork nos países baixos, em que estão colocadas pedras, onde cada uma delas representa uma vida num total de 102 000 que morreram neste local, o campo de concentração de Belgen-Belsen na Alemanha, em que estão enterradas cerca de 23 200 pessoas e Auschwitz ter sido o local, onde mais de um milhão de judeus foram mortos pelos nazis, dos quais 230 000 crianças e adolescentes que foram deportadas para Auschwitz, apenas foram encontradas vivas, cerca de 700, quando o campo foi libertado.

 

É fundamental que a tragédia que aconteceu no Holocausto não volte a suceder no futuro, por isso é importante que tenhamos noção da gravidade pelo qual muitos sofreram e que infelizmente não sobreviveram num dos períodos mais negros da Humanidade.





As sobreviventes do Holocausto contam as suas histórias de uma forma intimista e real de tal forma que ainda têm tatuadas, os seus números de campo de concentração que representam um passado cheio de traumas, mas que conseguiram ter coragem para falar sobre o mesmo. Estas são raparigas corajosas que sempre lutaram por aquilo que mais acreditavam e tinham um grande desejo de viver, por isso nunca desistiram por mais adversidades que fossem colocadas no caminho e também eram apenas crianças ou mesmo adolescentes quando foram capturadas e enviadas para campos de concentração.

 

Helga, Andra, Tatiana, Sarah e Arianna são as sobreviventes que passam o testemunho às novas gerações, sonhando com o futuro, onde foram indicados quando foram deportadas e em que campos de concentração estiveram a viver. Estas são pessoas que estavam constantemente a lutarem pela sobrevivência por mais difíceis que sejam as suas condições e algumas das suas memórias por vezes eram demasiado violentas para serem recordadas, sendo que acabaram por transmitirem as mesmas às gerações seguintes, mesmo depois de terem estado em silêncio por um longo período de tempo, devido a vergonha, medo de que ninguém acreditasse ou mesmo por ainda não terem combatido os traumas que adquiriram.


Contar uma história tão dramática como as que os sobreviventes viveram não é nada fácil de partilhar e parecia impossível construir uma vida sobre uma base de caos, sofrimento e morte, mas estas mulheres conseguiram e quiseram passar o seu testemunho e a sua história de tal forma que até ajuda o espetador a refletir sobre esta época que foi negra para muitas pessoas que sofreram, em que teve um excesso de crueldade humana que incluía violência e tortura causada pelos nazis.




Durante o documentário, também temos a oportunidade de acompanhar a jornada de uma jovem chamada Katherina, desempenhada por Martina Gatti, que tem curiosidade e interesse em saber mais sobre Anne Frank, uma judia que tornou-se num símbolo inspirador para muitos. Ela visita muitos dos sítios que fazem parte da história desta judia, tais como, o campo de concentração de Bergen-Belsen na Alemanha, onde Anne e a sua irmã Margot morreram, centros memoriais dedicados às vítimas do Holocausto ou até mesmo o abrigo secreto onde Anne viveu em Amesterdão, entre outros, com o objetivo de ir procurando por respostas e revelando a sua interpretação e visão perante tudo aquilo que ia sentindo em cada local, utilizando as redes sociais para se exprimir.  



Os jovens estão cada vez mais interessados em saber as memórias conturbadas e avassaladoras pelas quais os seus antepassados tiveram de passar para conseguirem sobreviver e assim, torna-se num testemunho poderoso com a transmissão de uma mensagem de coragem perante ações graves de violência cometidas pela humanidade que pode influenciar milhares e milhares de pessoas.


 

Este documentário é uma boa homenagem a Anne Frank, em que são utilizadas as páginas que escreveu de uma forma extraordinária no seu diário e também tenta transmitir uma mensagem relevante para todos para assim evitar uma tragédia como foi a do Holocausto ou também denominado por Shoah que foi considerado como o genocídio mais documentado da história, mas para além disso, dá a oportunidade de criar um diálogo sobre este tema, onde pessoas com uma faixa etária mais avançada podem partilhar as suas aprendizagens e experiências que obtiveram num período muito conturbado com as gerações mais jovens.

 

Atualmente, os quartos da casa secreta situados na rua Prinsengrach 263, em Amesterdão, estão vazias para honrar as 6 milhões de vítimas dos nazis, sendo que foi a decisão de Otto Frank, o pai de Anne e único sobrevivente das oito pessoas que se esconderam neste espaço, mas ele também quis lutar contra a discriminação na sua própria experiência, enquanto uma pessoa que conseguiu sobreviver. Por isso, se visitarmos a casa de Anne Frank visitaremos uma casa vazia, mas não deixa de ser um local muito interessante de se conhecer e ter assim, a oportunidade de entrar na vida de Anne e até subir as escadas pertencentes ao seu esconderijo e ver os objetos que sobraram desta casa.



O Diário de Anne Frank é daquelas que obras que fica na memória de qualquer um e eu não fui exceção, pois li-o durante a minha adolescência e sem dúvida que o considero como um dos melhores livros que li até agora, pois as palavras e relatos desta jovem judia continuam a ser um legado poderoso que influencia milhares de pessoas e eu fui uma dessas, principalmente depois de ter visitado a sua casa em Amesterdão e ter aprendido muito mais sobre a sua história.

 

O documentário é muito interessante de se acompanhar, pois é um tipo de chamada de atenção e de lição de uma história bem real para o público ter uma noção de como as coisas funcionavam durante o Holocausto e tendo a partilha de uma figura tão enigmática como foi Anne Frank. Este foi bem construído e estruturado, sendo constituída por uma boa qualidade de fotografia, uma boa escolha de excertos do diário de Anne e de vídeos que utilizaram de arquivos e por uma narração excelente feita por Helen Mirren, em que a forma como ela foi lendo as palavras de Anne com uma entoação específica e adequada que faz com que vai tendo movimentos corporais e expressões faciais que ajudam a mostrar o quando a escrita de Anne nos faz sentir.