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quinta-feira, 2 de julho de 2026

The Death of Robin Hood - o que esperar de uma adaptação completamente diferente e nova desta lenda (Crítica)

The Death of Robin Hood (A Morte de Robin Hood, como título em português) é um filme que apresenta uma reinterpretação mais crua, realista e emocional da lenda, questionando o mito de Robin Hood e explorando um retrato mais humano de uma figura confrontada com o seu passado e com a lenda que ajudou a construir.

Esta versão mais sombria de uma das figuras mais icónicas da cultura pop é realizada por Michael Sarnoski, tendo Hugh Jackman no papel do lendário fora da lei, Jodie Comer e Bill Skarsgård.

Então, confrontado com o seu passado de crime e assassínios, Robin Hood encontra-se gravemente ferido depois de uma batalha que pensava ser a última. Nas mãos de uma mulher misteriosa, é-lhe oferecida uma oportunidade de redenção.

Aqui, nós temos um herói confrontado com o peso do mito e com a oportunidade de dar um novo sentido ao seu legado.

Já imaginaram se todas as histórias que tivéssemos ouvido falar sobre Robin Hood eram na realidade uma grande mentira? E ele seria completamente o oposto? Isso, é uma das coisas que vai sendo abordado nesta nova adaptação pouco convencional.

Estas questões começam a ser colocadas, a partir do momento em que após uma batalha decisiva, ele é ferido e está mais perto de adquirir a morte que tanto desejava. Logo de seguida, ele é transportado para uma ilha remota liderada por uma mulher com uma personalidade muito especial, que lhe salva a vida e lhe oferece a possibilidade de ter uma segunda oportunidade. 

Este é um lugar em que todos são aceites e onde podem recomeçar. Desde que contribuem nesta nova comunidade, não importa de onde vieram. E esta poderia ser a ocasião ideal para Robin Hood e quem sabe, melhorar a capacidade de lidar com a culpa e com os seus demónios.

Divulgação: NOS Audiovisuais

The Death of Robin Hood é uma reinvenção completa daquilo que conhecemos sobre o popular fora de lei.  É uma abordagem muito mais sombria, intensa e até humana que surpreende pela positiva e é cheia de garra.

Neste caso é mais focado no seu legado, no seu sentimento de culpa e na possibilidade de redenção pelos atos cometidos repletos de violência. E nesta narrativa, não irá faltar momentos de pura tensão, raiva, ação, reflexão e emoção.

O próprio ambiente do filme é diferente e denso, sendo que acompanhamos um lado desta lenda que normalmente não é abordado e não é tão tradicional de se ver.

Hugh Jackman faz um excelente e muito poderoso desempenho deste Robin Hood e merece todo o devido reconhecimento. Podemos assistir a um Robin Hood forte, atormentado, resiliente, mais frio e que mesmo no silêncio, tem a capacidade de nos transmitir algo.

É mesmo muito interessante observar a versatilidade no trabalho de Hugh Jackman e como ele interpreta todas as camadas e complexidades deste protagonista.  

Se a pessoa está muito habituada aquela história tão tradicional de Robin Hood, um grande herói que roubava aos ricos para dar aos pobres, então, neste filme, não espere nada disso.  

The Death of Robin Hood é completamente inovador e obscuro. Não nos tira a atenção, entregando assim, algo novo e surpreendente. E tudo isto é acompanhado por uma ótima cinematografia, banda sonora, vistas estupendas e boas interpretações por parte do seu elenco.


sexta-feira, 21 de março de 2025

Filme "Locked: Sem Saída" - o que podemos esperar deste thriller de terror

 

Depois de ter sido apresentado na última edição do Festival de Cinema de Toronto, temos a estreia de Locked: Sem Saída. Do produtor Sam Raimi e realizado por David Yarovesky, este é um remake do thriller de ação argentino ‘4x4’ que capta a essência do suspense da ação, conduzindo o espetador a um clímax explosivo.  

Bill Skarsgård e Anthony Hopkins são os protagonistas.

Quando Eddie (Bill Skarsgård) arromba um SUV de luxo cai numa armadilha mortal montada por William (Anthony Hopkins), um autoproclamado vigilante que aplica a sua forma de justiça perversa. Sem maneira de fugir, Eddie tem de lutar para sobreviver numa viagem em que a fuga é uma ilusão, a sobrevivência é um pesadelo e a justiça é aplicada a alta velocidade.

Aqui o público embarca numa viagem selvagem de reviravoltas imprevisíveis que o levarão a uma experiência sombria e torturante. Afinal, quem sobreviverá a este jogo violento de gato e rato, onde a moralidade e a sobrevivência cruzam-se de forma inquietante?

Já imaginaram como um mero SUV de luxo é transformado numa autêntica máquina de matar? E neste caso podemos definir que não existem limites e que o luxo pode mais tarde se revelar fatal.

Tudo isto inicia-se com Eddie, um jovem ladrão que, ao tentar assaltar um carro de luxo, se vê preso numa armadilha engenhosa e mortal. William, o dono do veículo, decide fazer justiça pelas suas próprias mãos e remotamente tranca Eddie no interior da viatura, submetendo-o às mais cruéis torturas. Assim, o que parecia ser um roubo rotineiro transforma-se rapidamente num pesadelo sufocante com Eddie numa armadilha mortal, sem saída e à mercê do seu captor.

Divulgação: NOS Audiovisuais

Locked: Sem Saída é um thriller de terror completamente obscuro e intenso envolvido num nível elevado de adrenalina e tensão, onde tudo aquilo que pode acontecer é maioritariamente imprevisível. O espetador é levado para um ambiente sombrio e cheio de violência, onde não sabemos o que esperar, enquanto observamos as inúmeras tentativas em vão deste jovem em tentar escapar deste género de prisão bem eficiente. De uma maneira muito própria, acabamos por criar alguma empatia por ele e torcemos para que consiga sobreviver para finalmente, se tornar no pai que a sua filha realmente merece.

Podem existir alturas em que a história em si é previsível, mas não deixa de oferecer surpresas inesperadas. Mesmo assim, prende a atenção de quem está a assistir e mantém-se o interesse em querer acompanhar toda esta trama enrolada em suspense, ação e rasteiras.

Divulgação: NOS Audiovisuais

Relativamente à interpretação dos dois protagonistas, eles apresentaram com qualidade as camadas tão opostas das personalidades complexas destas personagens. Na maior parte do tempo, assistimos ao desempenho de Anthony Hopkins apenas através da sua voz e no entanto, a pessoa fica na mesma arrepiada com este homem revoltado que não teme as consequências dos seus atos.  

Já Bill Skarsgård é bom vê-lo num registo diferente dos seus anteriores trabalhos e ele consegue transmitir bem o desenvolvimento do sofrimento e dor da sua personagem, sem precisar de utilizar muitas palavras e onde as expressões faciais foram essenciais.

Este filme tem um tom explosivo de tirar o fôlego e uma cinematografia bem executada, em que nos é mostrado os extremos que o desespero pode levar um ser humano a ter comportamentos perigosos e instáveis. E como fazer a justiça pelas próprias mãos com recurso a tecnologia avançada nem sempre tem o resultado pretendido. 

Concluindo, Locked: Sem Saída irá entreter, principalmente para quem gosta de thrillers sombrios.  



segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Filme "O Corvo" - será que devemos comparar este remake com o filme original de 1994?

 

Já estreou o filme, O Corvo (The Crow, como título original) que é um remake moderno da banda desenhada original de James O’Barr. A primeira versão de O Corvo que foi lançada nos cinemas em 1994, ficou marcada pela morte acidental, durante as filmagens, de Brandon Lee, ator e filho do ícone das artes marciais, Bruce Lee.

Desta vez, esta nova adaptação é realizada por Rupert Sanders e Bill Skarsgård assume este papel marcante do universo da cultura pop. FKA Twigs e Danny Huston também fazem parte do elenco.

Esta é a história de um super-herói sobrenatural, que é ressuscitado após a sua morte para combater o crime.  

As almas gémeas Eric Draven (Bill Skarsgård) e Shelly Webster (FKA Twigs) são brutalmente assassinadas quando demónios do seu passado sombrio os alcançam. Para salvar o seu verdadeiro amor, Eric sacrifica-se e sai em busca de uma impiedosa vingança contra os seus assassinos, atravessando o mundo dos vivos e dos mortos para restaurar o que está errado.

Divulgação: Pris Audiovisuais

Primeiramente, há que referir que existem produções que são remakes que não devem ser comparados com o seu original, porque depois acaba por dar um mau resultado e assim, desiludir as pessoas que estão com as expetativas muito elevadas. Este remake é um desses casos e por isso, o melhor é separarem por completo estes dois filmes.

Eric Draven, uma pessoa que parecia que não fazia mal a uma mosca muda completamente, quando ele e a sua companheira são assassinados. Devido a isso, ele decide assumir o papel de vingador e a identidade do Corvo em busca de uma impiedosa vingança contra os seus assassinos. Ninguém está a salvo desta figura obscura rodeada de corvos.

Divulgação: Pris Audiovisuais

Com quase duas horas de duração, esta versão de O Corvo é um thriller de ação que garantidamente, não vai ser para todos os gostos, principalmente se forem feitas comparações com o original. Mas, de vez em quando, consegue entreter à sua maneira. É evidente alguns dos seus problemas, sendo que um dos seus principais foi sem dúvida, a escolha do elenco, exceto Bill Skarsgård. Temos o exemplo de FKA Twigs que deu pele a um personagem sem qualquer carisma, irritante e que não transmitia uma química realista com Bill Skarsgård. E muito da sua interpretação pareceu bastante artificial, levando a que seja uma das razões pelos quais não é possível criar uma empatia com ela. Assim, acaba por se tornar num personagem facilmente esquecível.  

No entanto, foi bom assistir ao trabalho de desenvolvimento de Bill Skarsgård, onde temos a chance de acompanhar a jornada e transformação de Eric Draven que se tornou num lutador determinado, perspicaz e infalível. Este é daqueles atores que foi interessante observar as suas expressões corporais e faciais em certas cenas que muitas vezes, valem mais do que diversas palavras. Além disso, um dos destaques também vai para as cenas de ação que incluem lutas bem coreografadas, levando assim, a prender mais a atenção de quem está a ver.  

Este remake de O Corvo tem os seus altos e baixos e é plenamente diferente do original. Contudo, não foi uma perda de tempo ver mais um desempenho de Bill Skarsgård que continua a surpreender em cada um dos personagens que interpreta.


segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Crítica ao filme "Devil All The Time" da Netflix, protagonizado por Tom Holland - um thriller misterioso que aborda a religião e a violência

 

O filme designado por Devil All The Time (O Diabo de Cada Dia, em português) foi considerado como uma das estreias mais esperadas da Netflix, principalmente devido ao seu elenco de luxo, tendo estreado recentemente. Este thriller de cerca de 138 minutos é baseado no romance com o mesmo título de 2011, do escritor Donald Ray Pollock, tendo sido criado e realizado por Antonio Campos e com a produção de Jake Gyllenhaal.

 

O elenco é constituído por Tom Holland (Arvin Russell), Bill Skarsgård (Willard Russell), Sebastian Stan (Lee Bodecker), Mia Wasikowska (Helen Hatton), Robert Pattinson (Preston Teagardin), Jason Clarke (Carl Henderson), Riley Keough (Sandy Henderson), Drew Starkey, Harry Melling (Roy Laferty), Haley Bennett (Charlotte Russell), Eliza Scanlen (Lenora Laferty), Douglas Hodge (Tater Brown), Gregory Kelly (Bobo McDaniels), Pokey LaFarge (Theodore), entre outros.


 

A história desenrola-se na zona rural das cidades de Knockemstiff, no sul de Ohio e em Coak Creek, na Virgínia Ocidental, após o final da 2ª Guerra Mundial e até 1960, onde são apresentadas personagens que são estranhas à sua maneira, mas que têm um objetivo específico a alcançar, enquanto percorrem a jornada respetiva. Desde um jovem que passa por uma infância conturbada, um casal de serial killers com os seus próprios planos e um pregador que chega à cidade para arrasar, utilizando os seus discursos arrebatadores. Será que os caminhos de cada um vão ser cruzados de alguma forma?

 

Este drama aborda temas, tais como, evangelismo, violência, corrupção, vingança e o poder que a religião pode ter nos outros, tendo a capacidade de influenciar as pessoas mais sensíveis a cometerem atos terríveis e desenrolando-se no período que vai desde 1939 até 1945 e também até 1960, onde é mencionada a Guerra do Vietname, em que algumas das cenas são mostradas através de flashbacks.

 



Willard Russell é um veterano atormentado que regressa da guerra, tentando criar uma vida nova, longe dos seus demónios e traumas até que um dia, ele apaixona-se perdidamente por uma rapariga muito simples e simpática que chama-se Charlotte e trabalha num café.

 

Ele considerava-se como uma pessoa religiosa, mas perde a sua fé após tudo aquilo que presenciou na guerra, sendo que vai vivendo a sua vida, de um modo muito perturbado, devido aos acontecimentos que foram sucedendo, ao mesmo tempo que resolve aos poucos retomar a fé que tinha dantes, mas não será uma tarefa fácil, principalmente quando a vida lhe prega uma partida e a sua mulher é diagnosticada com um cancro agressivo e terminal.

 


Willard tenta a todo o custo impedir que Charlotte morra, que inclui sacrifícios sanguinários que ele coloca no seu altar improvisado e também obrigando o seu filho, Arvin a rezar com intensidade através de chantagem emocional, mesmo que este possa não ter qualquer tipo de vontade de o fazer. Infelizmente as suas inúmeras orações não têm o efeito desejado, fazendo com que ele tome atitudes plenamente destruidoras, pois ele tem estado a sacrificar-se de formas indescritíveis para salvar a sua mulher que não chegaram a dar em nada e assim, acaba por não aguentar com a sua dor de a ter perdido.

 

O ator que interpreta Willard Russell fez um trabalho brilhante representando um veterano que tenta lidar com os seus traumas e lutar com os seus fantasmas, sendo que são efeitos secundários de ter participado na guerra, demostrando que esta personagem é capaz de fazer tudo o que for preciso para salvar quem mais ama.

 


Arvin Eugene Russell é o filho órfão de Willard e Charlotte, que passou por uma infância complicada e conturbada, desde bullying, a doença da sua mãe e os acontecimentos devastadores que aconteceram à sua família. Quando ele cresce, tenta proteger as pessoas que mais ama, ao mesmo tempo que tenta ser um homem bom, mas tem um lado mais violento, que nem sempre consegue controlar.

 

Inicialmente Arvin é um jovem que está no seu canto, não quer ter problemas e é perturbado pelos outros da sua idade em que chega a um ponto que vai acumulando aos poucos, a sua raiva interior ao longo dos anos e quando não consegue aguentar mais, ultrapassa todos os limites, recorrendo à violência, mesmo que tente a todos os custos ser uma boa pessoa e proteger aqueles que mais gosta ou por uma questão de instinto de sobrevivência.


 

Este é um jovem que tem uma vida marcada por perdas de pessoas que ama, traumas e tragédias que passou durante a sua infância e a influência que o cancro da sua mãe teve nas ações cometidas pelo seu pai. Arvin luta contra as forças do mal que ameaçam ele e a sua família, fazendo-o questionar as suas crenças religiosas, ao mesmo tempo que cruza-se com pessoas bem estranhas que podem ser, desde um casal de assassinos em série a um xerife corrupto.

 

Num dos seus aniversários, Arvin recebe a arma do seu pai que foi um soldado na 2ª Guerra Mundial e chega a um ponto que vê a sua vida a mudar de uma forma caótica, onde testemunha situações inexplicáveis. Ele tem boas intenções, mas apesar de ser um homem com um bom coração acaba por ter os seus momentos mais violentos.


 

Arvin tem uma carga emocional intensa, em que eu fiquei surpreendida com o tempo que demorou a tomar atitudes mais impulsivas, mesmo que tivesse sido criado por uma avó fanática pela sua religião.

 

O espetador até consegue criar uma certa ligação com esta personagem mesmo que não tenha tido tempo suficiente para o fazer ou por acontecer situações mais violentas que possam distrair o público de uma possível conexão.

 

Tom Holland fez um desempenho excelente, surpreendendo na forma como interpreta a sua personagem e onde podemos ver um lado bem mais dramático, relativamente a trabalhos anteriores deste ator, fazendo com que a pessoa fique na expetativa e com curiosidade em ver mais versões deste tipo no trabalho futuro do mesmo, ao longo da sua ainda curta carreira.


 

Na vida de Arvin também temos Lenora Laferty que é sua meia irmã e foi criada como uma católica autêntica, onde vive o seu próprio inferno de uma forma que não imaginava que algum dia viesse a suceder, mas será que Arvin vai conseguir protegê-la?

 



Carl e Sandy Henderson são um casal que têm um segredo muito grave por desvendar, mas será que vão sofrer com as consequências dos seus atos? Estes são uma dupla de assassinos em série, pois eles percorrem as estradas norte-americanas, oferecendo boleia a estranhos, mas têm um objetivo muito específico que inclui a vítima ser modelo fotográfico por umas horas e depois acabando por ter um fim terrível e macabro.

 

Este casal espalha simpatia por quem se cruzam, principalmente perante homens que podem ser adequados para os seus planos, que inclui posar em posições comprometedoras, mas infelizmente esta dupla de serial killers gostam de deixar os seus crimes registados em fotografias.

 


Como pessoas fanáticas pela sua religião, a comunidade está cheia de expetativas e ao mesmo tempo ansiosa quando chega à sua terra, um pregador chamado Preston Teagardin que é motivo de celebração, em que cada família traz comida para este homem saborear, mas nem todos são recebidos da melhor forma por este indivíduo.

 

Preston Teagardin é uma personagem cruel e manipuladora que aproveita-se das pessoas mais vulneráveis para benefício próprio, utilizando os seus discursos emblemáticos, mas que não pode fazer sentido para todos e que infelizmente, nem sempre têm os melhores efeitos nas pessoas.

 

O ator interpreta de um modo excelente esta personagem, em que ele acaba por protagonizar muitas das cenas mais odiadas do filme, pois ele é muito credível na forma como vai desempenhando as mesmas, principalmente quando utiliza o poder de Deus para o seu próprio benefício e para conseguir alcançar aquilo que quer.


 

Lee Bodecker é um xerife corrupto, sendo cobarde em determinadas situações e em outras, não tem equilíbrio nas suas atitudes e faz os possíveis para manter e preservar as aparências na cidade, protegendo assim, a sua reputação.


 

Por fim, Roy é um pregador que inicialmente tinha uma fobia por aranhas até que encontrou a sua fé em Deus, perdendo esse medo por completo. Tem como aliado, Theodore, que tem sequelas físicas, mas não é por isso que deixa de tocar a sua guitarra. Será que Roy vai cometer atos completamente imperdoáveis em nome do seu Deus?

 

Esta é uma história bem violenta que decorre após a 2ª Guerra Mundial e até 1960, principalmente na cidade de Knockemstiff, numa zona rural de Ohio e também em Coak Creek, na Virgínia Ocidental, em que acompanha-se a evolução de personagens obscuras durante cerca de 20 anos e onde um dos temas predominantes é a religião, como esta pode afetar cada personagem e o que isso significa para cada uma delas e também a ligação que estas duas localizações podem ter uma com a outra.


 

Estas são comunidades muito religiosas que definem cada decisão da sua vida, de acordo com a vontade de Deus, sendo que as pessoas tentam aliviar as suas mágoas ou simplesmente procurar respostas a algo que para elas é um ser superior e por isso, fazem o que for necessário para que as suas orações sejam atendidas que por vezes podem incluir atitudes extremas que não têm qualquer tipo de justificação.

 

Este filme é narrado pelo próprio autor do livro com o mesmo nome em que é baseado, nos quais vai contando a história de cada personagem e é essencial que o espetador vá ficando atento a cada pormenor deste suspense e assim, evitando perder-se no seu decorrer. A forma como o autor vai narrando a história até pode influenciar de certa forma, quem o está a ouvir e a experiência que adquire do filme, dependendo da intensidade e entoação com que utiliza a sua voz enquanto vai contando a mesma.

 

Esta história vai sendo uma aprendizagem para quem assiste, mas também para cada uma das suas personagens, em que vemos lições de vida e possíveis consequências que podem dar origem a um acumular de raiva, levando a ataques sucessivos de violência ou mesmo situações que vão decorrendo e como as personagens vão reagindo a elas, podendo ser vital na sua evolução como pessoas.


 

Este é um thriller psicológico em que as personagens vão sendo constantemente desafiadas, principalmente a nível emocional e nem todas conseguem vencer, pois são vários os traumas com que têm de lidar e nem sempre têm a força suficiente para os enfrentar. Neste caso, existem personagens bem perturbadoras que não conseguem lidar com as adversidades da vida.

 

Também temos a oportunidade de ver cada personagem a procurar por algo específico que acaba por tornar-se num desafio difícil, mas não quer dizer que seja impossível e para além disso, também vemos representações sobre como a fé é vista por estas pessoas, pois a religião afeta a vida das pessoas de uma forma bem específica, principalmente se é uma comunidade que vive num sítio mais rural.


 

Pode acontecer o espetador não chegar a torcer totalmente por uma personagem, mas não deixa de ser curioso, ver como a história de cada um vai terminar, podendo ser por vezes, surpreendente. Mesmo que sejam abordadas as histórias de uma quantidade vasta de personagens, a pessoa não se perde e é interessante a ligação que vão fazendo umas com as outras, acabando por fazer todo o sentido. Assim, as histórias das diferentes personagens são cruzadas de forma inteligente.

 

Este filme tenta mostrar o significado que é ter uma vida religiosa e o que pode estar no interior de cada um de nós, onde nos questionamos se faz sentido ou não, que determinados atos devem ser cometidos pelas próprias mãos da pessoa. Sem dúvida, que dá para refletir sobre vários temas fundamentais, tais como a manipulação, rejeição, vingança ou influência e como devemos reagir aos mesmos.


 

Também tentam mostrar que o ser humano tem um monstro no seu interior. Isso até me faz acreditar que chegamos à conclusão que todos nós acabamos por ter dois tipos de lobos, dentro de nós, um com luz e outro com escuridão e existe uma luta intensa entre os dois que têm o objetivo de estar no controlo e assim, temos de ser nós a escolher quem realmente queremos ser. Assim, este filme deixa refletir sobre o que acabou de acontecer e a forma como lidamos com a nossa própria vida e onde se baseia a nossa fé, sejamos pessoas religiosas ou não.

 

Infelizmente são vários os atos que são cometidos de uma forma conveniente para uma determinada personagem, onde esta utiliza como justificação, a sua fé e a mensagem de Deus, em vez de admitir que é por benefício próprio ou para propósitos específicos. Estas pessoas aproveitam-se da crença dos outros para cometerem ações terríveis, sem pensarem nas consequências e nas vítimas respetivas. Assim, a moral das personagens acaba por ser constantemente questionada, principalmente devido a atos de violência pura e excessiva, existindo conflitos morais que podem influenciar a própria construção da personalidade da pessoa e possíveis atitudes que podem vir a ter.

 

Quando pessoas religiosas que deveriam estar a fazer o bem acabam por estar a fazer o contrário, em benefício próprio e justificando as suas ações como sendo feitas em nome de Deus, sendo que estas acabam por ser classificadas como os diabos que vivem neste planeta. Nesta história são apresentadas personagens bondosas e humildes que revelam-se completamente o contrário, em que tudo é feito a partir de aparências, onde estas utilizam a sua influência para os seus próprios planos, que por vezes até podem vir a ser macabros. Assim, este filme mostra como pessoas mais vulneráveis podem ser influenciadas, devido à sua religião ou devido à manipulação de líderes que deveriam estar o fazer bem em vez de utilizarem a fé das pessoas para objetivos peculiares.


 

Num geral, estas personagens são bem complexas, apesar de cada uma ter a sua peculiaridade, em que podemos ver a jornada e aprendizagem de cada um deles, que nem sempre pode acabar bem, pois são alguns que vão ter os seus fins trágicos, uns mais surpreendentes do que outros. Existem cenas que podem causar um impacto imediato a quem está a assistir, devido à sua intensidade, por isso é um filme que não é indicado aos espetadores mais sensíveis e pode não agradar a todos por ser uma história mais pesada.

 

Infelizmente, eu acho que algumas das personagens não faziam muita falta ao filme, pois poderiam atrapalhar e tirarem o brilho a outras mais relevantes e fundamentais para a continuação da história. Poderia fazer todo o sentido, caso esta produção tivesse sido uma minissérie, mas num filme nem sempre existe tempo suficiente para desenvolver suficientemente as personagens, quanto mais introduzir outras que podiam bem ter sido dispensadas.

 

Este filme consegue reunir um elenco de luxo, em que temos a oportunidade de ver a versatilidade de muitos destes atores, em que estamos habituados a ver em registos bem diferentes do que acontece nesta produção e para além disso, também podemos assistir a vários momentos dramáticos em ambientes pesados, onde vemos o trabalho incrível dos atores deste projeto.


 

A história é contada a um ritmo bem lento, onde vamos estando em períodos de tempo diferentes, dependendo da jornada em que está situada determinada personagem. Também é constituída por um argumento bem desenvolvido, uma boa cinematografia e uma fotografia mais sombria que pode representar uma falta de esperança e fé que as personagens vão tendo, enquanto percorrem o seu caminho e considero que seja a mais indicada para este suspense. Para além disso, a edição deste filme está muito bem implementada e a banda sonora também ajuda a criar o clima e a tensão necessária para um thriller deste tipo, em que faz todo o sentido quando chegamos ao seu final, pois todas as ligações entre as personagens foram bem realizadas.

 


Este filme de drama e terror tem uma história misteriosa, cheia de suspense, com muita tensão e tragédias pelo caminho e com personagens bem sinistras que mostram um pouco a hipocrisia e a maldade da humanidade com algumas controvérsias pelo meio, em que são introduzidas pessoas fanáticas por uma determinada religião que nem sempre têm bom senso e usam a violência de um modo excessivo, em nome de Deus e tornando-se por vezes angustiante.

 

Como não tive oportunidade de ler o livro pelo qual este filme foi baseado não posso fazer comparações sobre esta adaptação, apesar de achar que nesta história pode haver uma certa crítica a esta religião específica e os seus simbolismos, onde ajuda a refletir sobre o que vai acontecendo com as cenas mais tensas e dolorosas que o público vai acompanhando e para além disso, também mostra que por mais luz que uma determinada pessoa possa vir a ter, não deixa de ter o seu lado mais obscuro.


 

Este é daqueles filmes pesados que tenho a certeza que vão dividir opiniões pois houve um tempo excessivo do mesmo que poderiam ter aproveitado para aprofundar muito mais determinadas personagens que eu considerei vitais para o desenrolar da história, mas não deixa de ser interessante de ver para que o espetador possa tirar as suas próprias conclusões e para isso acontecer é essencial que esteja com muita atenção para não perder a noção de espaço e tempo.

 

Devil All The Time é uma crítica ao ser humano e aos seus atos de maldade que comete perante outras pessoas mais vulneráveis que simplesmente são manipuladas facilmente, mas que deixa refletir em possíveis semelhanças com a realidade, por isso eu acho que esta história até traz uma discussão interessante e aconselho a verem.